As redes e a economia solidária



Na construção de uma nova economia solidária, as redes de cooperação econômica têm se mostrado uma ferramenta diferenciada na articulação de forças sociais e políticas. Pela sua natureza e composição, formam uma verdadeira fortaleza dos trabalhadores capaz de desenvolver mecanismos de enfrentamento à dinâmica e aos artifícios de cooptação utilizados pelo capital nos processos econômicos e sociais. Instigam um ambiente de cooperação e solidariedade em que uma nova forma de autogestão e uma nova ideologia vão fermentando nos corações e mentes de homens e mulheres, gerando em seu ventre a esperança de um novo mundo, um mundo melhor.

Vivemos, hoje em dia, um novo estágio de mudanças da produção capitalista, que podemos denominar de acumulação flexível, em um confronto com a rigidez do fordismo. Ele se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de novos setores de produção, novas ofertas de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas intensificadas de inovação na estratégia comercial, tecnológica e organizacional. Apresenta um crescimento do emprego no setor de serviços, e uma luta pelo controle da força de trabalho que leva ao nascimento de novas técnicas industriais ou à integração do fordismo a toda uma rede de subcontratações e de deslocamentos. Intensifica-se a busca por maior flexibilidade diante do aumento da competição e dos riscos.

As mudanças atingem o mundo do trabalho. Verifica-se uma efetiva heterogeneização do trabalho, identificada pela expansão do trabalho parcial, temporário, precário, subcontratado, terceirizado e com a crescente entrada feminina no mercado de trabalho. Tem-se como conseqüência uma precarização intensificada, que marca o mundo do trabalho dual no capitalismo contemporâneo, caracterizado por trabalhadores com “proteções” sociais e trabalhadores excluídos dessas “proteções”. O resultado mais significativo dessas transformações sentidas em todo o mundo é a expansão, sem precedentes na era moderna, do desemprego estrutural em escala global.

Nesse cenário, a adoção de novas estratégias de gestão, acompanhadas do incremento de novas tecnologias, tende a tornar o nível de emprego cada vez mais sintonizado com o ritmo de uma produção flexível. As mudanças atingem, também, as condições de organização e desenvolvimento de políticas públicas por parte do Estado, evidenciando um relativo enfraquecimento do seu papel de centralizador das ações organizadoras da sociedade. Assim como na fábrica, com as mudanças da reestruturação produtiva deixa de concentrar todas as atividades produtivas, também as estruturas e instituições estatais passam a compartilhar com as corporações empresariais e instituições da sociedade civil a implantação de políticas públicas. Isso devido à nova condição de agente de políticas e ideologia neoliberal, com a redução relativa de seu peso institucional e de seus recursos. Com a redução de recursos próprios e de capacidade organizacional, os atores estatais e públicos passam a ser incapazes de garantir sozinhos os recursos necessários para a produção de políticas públicas. Sendo assim, são cada vez mais dependentes da cooperação e da mobilização coletiva de recursos de atores não-estatais e privados, submetidos a processos negociais com grupos sociais de poder.

A conjuntura descrita propicia um ambiente de convergência entre trabalhadores precarizados e desempregados e organizações não governamentais – ONGs – dos mais variados tipos e formatos que atuam articulados, impulsionados ou não por políticas públicas de governos populares. As redes de economia solidária possibilitam conjuminar força de trabalho e conhecimento técnico transformadas em força produtiva real, que transforma a natureza em produtos e gera serviços de interesse da sociedade. Esta força produtiva real pode ocorrer sob o signo de princípios socializantes, em uma escola de autogestão, quebrando a espinha dorsal da reprodução ideológica e de classe capitalista. A experiência apenas concretiza-se plenamente com a realização da mercadoria, isto é, na interação na sociedade, gerando renda para o trabalho. Para tanto, disputa espaços reais com a dinâmica e o mercado capitalista. No processo, apresenta-se como alternativa de economia e de vida.

Um exemplo já vitorioso é o segmento de confecção da EMREDE, a Rede Industrial de Confecção Solidária (RICS), composta por cinco empreendimentos solidários e pela oscip Guayí, fornecedora de roupa hospitalar de grandes hospitais públicos de Porto Alegre. Concorrendo com a superexploração da facção, já são visíveis os sinais de fortalecimento social das trabalhadoras. Além disso, as práticas de autogestão da rede já demonstram uma superioridade inequívoca frente ao emprego assalariado. Isto pode ser demonstrado no domínio da autogestão da renda, assim como nas novas práticas política das trabalhadoras.

Identificamos experiência com resultados similares na Rede ECCO de Reciclagem Solidária, em Caxias do Sul, RS. Nove Associações de Reciclagem, que antes se restringiam à triagem do material, com a articulação em rede, e nessa participando a Guayí, a Prefeitura e a Universidade, hoje passaram da condição de dependentes dos “atravessadores”, para a de seus mais fortes concorrentes. A Rede ECCO constituiu uma Central de Comercialização Solidária e está por inaugurar a primeira fábrica de beneficiamento de plástico reciclado.

Assim, a nova economia, democrática e socialista, construída a partir da escola da economia solidária, vai formando seus primeiros instrumentos e obtendo resultados práticos. A rede de economia solidária é a base deles.

* Coordenador Geral da Guayí, coordenador Geral da Associação dos Empreendimentos Solidários EMREDE e mestrando em Sociologia (UFRGS)

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